
A estudante Maria Alice Francisco, da Escola Técnica Estadual (Etec) Francisco Garcia, de Mococa, a cerca de 270 km da capital, nasceu sem parte do braço esquerdo. A condição dela inspirou colegas a desenvolverem uma prótese de braço com tecnologia de impressão 3D, com foco em funcionalidade, autonomia e inclusão.
O projeto científico, batizado de Adaptamão, foi criado pelos alunos do curso técnico de Mecânica Fabrício Bueno Francisco e Lucas Marques de Souza, em parceria com a própria Maria Alice, sob orientação dos professores Jayro do Nascimento Neto e Regina Destro Silva.
O trabalho resultou na criação de uma prótese mecânica articulada, fabricada com materiais mais leves e de menor custo em comparação aos modelos disponíveis no mercado, que podem facilmente ultrapassar R$ 200 mil, como próteses mioelétricas, biônicas ou estéticas.
De acordo com Fabrício, um dos principais desafios do seu grupo foi encontrar filamentos flexíveis adequados à impressão das peças. “Precisávamos de um material que permitisse a articulação dos dedos sem risco de fratura da peça ou de ruptura dos cabos durante o uso”, explicou o estudante.

Lucas relembrou que o primeiro modelo confeccionado pelo grupo de pesquisadores contava com um sistema de fixação próximo ao punho, mas a equipe identificou a necessidade de reposicionar o bracelete acima do cotovelo. “Só assim foi possível automatizar o movimento dos cabos responsáveis pela abertura e fechamento dos dedos”, afirmou.
Já a segunda versão da prótese, totalmente mecânica, utiliza fios que funcionam como tendões, acionados a partir do movimento do braço da usuária. “Com esse segundo modelo, consegui segurar copos, objetos e realizar atividades simples do dia a dia que antes não conseguia, como prender os meus cabelos”, relatou Maria Alice, que nasceu sem parte do braço esquerdo.
Atualmente, o grupo de pesquisadores da Etec de Mococa trabalha no desenvolvimento da terceira versão da prótese, que deverá apresentar melhorias estruturais que ampliem flexibilidade e possibilidades de movimento da peça.
O projeto Adaptamão foi apresentado na 16ª edição da Feira Tecnológica do Centro Paula Souza (Feteps) , principal evento de inovação e empreendedorismo estudantil das Escolas Técnicas (Etecs) e Faculdades de Tecnologia (Fatecs) do Estado de São Paulo.
A iniciativa também está alinhada ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 10 da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), que trata da redução das desigualdades socioeconômicas.
Não há estatísticas oficiais especificamente sobre o número de pessoas que vivem sem membros superiores no País. O Censo Demográfico 2022, produzido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aponta que cerca de 14,4 milhões de brasileiros têm algum tipo de deficiência, o equivalente a 7,3% da população com dois anos ou mais de idade, sem especificar casos de amputação ou malformações congênitas.
Dados da saúde pública indicam que amputações são procedimentos relativamente frequentes no Brasil, sobretudo em decorrência de diabetes, complicações vasculares, traumas e infecções. Em 2022, foram registrados aproximadamente 31 mil procedimentos de amputação de membros no Sistema Único de Saúde (SUS).
Já um levantamento realizado a partir de dados inseridos no Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS) aponta que, entre 2015 e 2020, mais de 10 mil amputações de membros superiores foram realizadas no país – sendo cerca de 4,3 mil amputações ou desarticulações de mão e punho. Não há dados consolidados sobre pessoas com ausência congênita de membros superiores ou inferiores.
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