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Não passava pela cabeça de Orival Chaves que um passeio no parque Beto Carrero, nos anos 1990, poderia se tornar, literalmente, a semente de uma nova atividade econômica muitos anos depois, quando abandonou o setor de pesca para produzir açaí juçara. Ninguém poderia imaginar também que seu cultivo no sistema agroflorestal seria referência de produção sustentável e se tornaria vital para suprir a demanda diária de açaí dos conterrâneos da esposa, que vieram do Pará para viver em Santa Catarina.
“Eu trazia sempre a minha falecida sogra, dona Dolores, pra passar uns tempos com a gente e quando ela viu as baguinhas caídas no pé da palmeira, catou, provou e disse que era um açaí muito gostoso. Aí eu fui perguntar para o gerente do parque se a gente podia colher um cacho, ele deixou e ficamos comendo açaí o dia inteiro, sujou toda a roupa! Foi aí que tivemos a ideia de fazer plantação”, recorda.
Orival, hoje com 73 anos, disse que já tinha a chácara, na localidade de Rio Novo, em Itajaí, onde vive com a esposa Carmem, natural de Tucuruí (PA). Eles se conheceram em Brasília em 1973, e em 1982 se casaram e vieram morar em Santa Catarina. Com saudade dos frutos de sua terra, Carmem trouxe as primeiras sementes e hoje o casal produz 15 toneladas de açaí por ano, provenientes de 10 mil pés.
“Vendo que a palmeira produzia bem por aqui, a gente começou a visitar clientes em Blumenau, Curitibanos, Jaraguá do Sul, tudo quanto é lugar onde tinha pé de açaí nos quintais a gente ia colher. Agora não preciso buscar cliente, eles vêm de longe comprar o fruto. Eu já cheguei a vender 10 toneladas para um cara de Garuva”, revela o produtor.
Ele conta que Dona Dolores foi figura fundamental também na hora de agregar valor ao fruto, quando trouxe de Tucuruí uma máquina de beneficiar açaí com capacidade para 5kg. A produção de polpa, que era para consumo próprio, se tornou um negócio e, a partir de 2016, Orival deixou definitivamente a lida na pesca para viver da roça. Atualmente, a polpa é vendida congelada em sua propriedade para um público crescente, que não abre mão de um açaí puro, livre de xaropes e outros aditivos que descaracterizam o alimento diário dos brasileiros do Norte, consumido com arroz, peixe e farinha.

A forma sustentável de produzir açaí a partir da juçara (Euterpe edulis), uma espécie nativa da Mata Atlântica protegida desde 2008, chamou a atenção do extensionista rural e engenheiro-agrônomo da Epagri, Antônio Henrique dos Santos, que trabalha com produtores de aipim da terra preta no Rio Novo e é entusiasta do sistema agroflorestal. Ele indicou a propriedade de Orival para a nutricionista e extensionista social Mabel Gomes Dias Lago, que organizou no dia 5 de maio a 1ª Reunião Técnica “Sistema Agroflorestal na Produção de Açaí Juçara” com o objetivo de inspirar outros agricultores a produzir o fruto de alto valor comercial, com a vantagem de manter a palmeira de pé.
Na programação teve relato da experiência de Orival, o extensionista rural Fábio Arenhart falou sobre legislação ambiental, material elaborado pela engenheira ambiental e extensionista social de Campos Novos, Julia Pereira, e Antônio deu dicas sobre manejo sustentável do solo e as vantagens de investir em um quintal agroflorestal para diversificar a alimentação da família e amenizar o calor.
Em seguida, os agricultores aprenderam como é realizada a colheita do açaí, já que a palmeira é alta e o povo do Sul não tem a mesma prática de subir no tronco como o pessoal da região Norte. Então, Orival escolheu um cacho bem maduro e cortou o caule com um bambu adaptado, fazendo o cacho cair no saco, segurado por um voluntário. Para que as frutinhas se soltassem, o produtor sacudiu o cacho e as frutinhas pretas estavam prontas para seguir para a pequena indústria de beneficiamento da chácara.
Na segunda parte do evento, Márcio Reis apresentou o programa “Juçaras por aí” e a agroindústria Barbacuá, localizada no Sul do Estado, que une preservação ambiental, educação e mobilização de agricultores para produzir açaí de forma sustentável. Para fechar, Mabel deu uma oficina culinária mostrando a versatilidade do fruto.

“A ideia do evento surgiu em janeiro, quando visitamos seu Orival para conhecer o cultivo e fiz uma postagem nas redes sociais. Um colega da Epagri de Tubarão viu o post e me colocou em contato com o Márcio, que além de fazer um trabalho pedagógico, compra a produção da agricultura familiar e está trazendo o projeto para o Litoral Norte”, conta Mabel.
Márcio Reis, 34, conta que começou a trabalhar com juçara em 2016, quando percebeu o seu potencial econômico e ecológico e passou a mobilizar os agricultores de SC e RS, que ficaram encantados com a proposta. “Era uma alternativa à extração de palmito, que se produz só uma vez e é arriscado, já que o corte da palmeira nativa é ilegal”, argumenta. Outra orientação para diversificar a produção e aumentar a renda é cultivar juçara em consórcio com outras culturas, como café sombreado e banana. Os interessados em aderir ao projeto podem acessar o perfil @somosbarbacua no Instagram.
Em 2019, ele montou a Barbacuá, que produziu 40 toneladas de polpa em 2025. A matéria prima vem do viveiro com 160 mil palmeiras no município de Praia Grande e de 80 agricultores. Em 2024, ele começou a promover oficinas pedagógicas em escolas e oficinas técnicas para produtores pelo projeto “Juçaras por aí”, que se expandiu para o Litoral Norte como estratégia de compensação ambiental. “O projeto foi aceito e indicado pelo Instituto do Meio Ambiente de SC (IMA) como agente de compensação socioambiental, fomentando o plantio e produção de juçara em nosso viveiro”, revela.

Segundo Márcio, o objetivo do projeto é espalhar dois milhões de sementes de juçara na região e outras nove espécies nativas da Mata Atlântica. E fomentar a relação dos agricultores familiares com os frutos nativos, envolvendo comunidades tradicionais e entusiastas da agrofloresta. Ao longo do mês, Márcio realizou ações educativas em escolas de Itajaí, Ilhota e Joinville para despertar nas crianças uma relação de afeto com a Mata Atlântica, sua fauna e flora e a beleza da floresta de pé.
Na chácara de Orival e Carmem, o ponto alto foi o verdadeiro banquete elaborado por Mabel e Julia, que produziram receitas à base de açaí. Para a oficina culinária, a receita escolhida foi um brownie funcional. Os presentes também provaram molho barbecue, pão e pudim de açaí. “Pensei em fazer uma oficina para mostrar outras formas de uso da polpa, não só como alternativa de consumo, mas também como fonte de renda. Mostrar que também podem vender outros produtos com alto valor de mercado”, afirma Mabel. A extensionista social de Luiz Alves, Amanda Novacoski, ajudou a servir as delícias.

Em termos nutricionais, Mabel conta que o açaí de juçara é rico em compostos bioativos, minerais, potássio, magnésio, ferro, vitamina E, C, A e antioxidantes. A seguir, uma das receitas que fizeram sucesso na Reunião Técnica:
Pudim de Açaí

Ingredientes
1 lata de leite condensado
Polpa de açaí (utilizar a mesma medida do leite condensado)
6 ovos
1 xícara de açúcar (para a calda)
Modo de preparo
Derreta o açúcar na forma de pudim, em fogo baixo e mexendo sem parar, até dissolver completamente, formando um caramelo. Espalhe a calda pela forma toda e reserve. No liquidificador, bata o leite condensado, a polpa de açaí e os ovos por cinco minutos. Transfira o conteúdo para a forma caramelizada e leve ao forno, pré-aquecido a 180 graus, para assar em banho-maria, por cerca de uma hora. Após assado, retire do forno, espere esfriar e leve à geladeira. Sirva gelado.
Por Renata Rosa, jornalista bolsista da Epagri/Fapesc
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