
Foto: Pablo Gomes/Epagri
O inverno parece distante, mas para quem cria gado de corte ou leite agora é a época certa de garantir o “prato cheio” dos animais na temporada de frio. A boa notícia é que neste ano os produtores terão à disposição 600 toneladas de sementes de azevém-anual SCS316 Altovale.
O cultivar foi desenvolvido pela Epagri e pela Cooperativa Regional Agropecuária Vale do Itajaí (Cravil) e disponibilizado em 2021 para assegurar pasto de alta produtividade e qualidade. O objetivo é possibilitar rentabilidade ao produtor de carne e leite durante as estações mais frias do ano, quando espécies que são ótimas no verão, deixam de produzir.
Os produtores enquadrados no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) poderão acessar as sementes por meio do kit forrageiras , com estoques limitados. Basta procurar os escritórios municipais da Epagri. Os demais podem adquirir sementes na Cravil, licenciada para produção da semente do Altovale, e em cooperativas que fazem compra direta para seus associados. Algumas agropecuárias do Oeste e Meio-Oeste também estão comercializando as sementes.
O volume de sementes oferecido em 2026 é quase dez vezes maior do que foi disponibilizado no ano passado (62,5 toneladas) e suficiente para cobrir até 30 mil hectares de pastagens. A utilização do Altovale tem grande impacto na produção forrageira nos períodos mais frios do ano, sendo uma opção importante para altas produtividades animais em função de ser uma forrageira de alta qualidade.
“A produtividade obtida com o Altovale pode ser comparada aos melhores cultivares disponíveis no mercado, incluindo os importados. A procura é muito alta, mas devido a frustrações na multiplicação de sementes, não se tem conseguido atender toda a demanda, estimada em 900 toneladas anuais”, afirma Ulisses de Arruda Córdova, engenheiro-agrônomo e pesquisador de Forragicultura e Pastagens da Estação Experimental da Epagri em Lages.

Ulisses foi um dos responsáveis pelo desenvolvimento do azevém Altovale junto com os colegas da Epagri Ana Lúcia Hanisch, Jefferson Araújo Flaresso, Humberto Bicca Neto e Dediel Junior Amaral Rocha. Segundo o pesquisador, o que o diferencia dos demais cultivares de inverno é a precocidade do primeiro pastejo, em torno de 40 a 50 dias, aliada a um ciclo intermediário de produção, cerca de dois meses a mais. O cultivar também tem alto teor de proteína, entre 25% e 30%, o que implica em elevado ganho de peso ou maior produção de leite.
Há ainda uma série de outras características do Altovale que trazem benefícios aos produtores rurais. Entre elas, a rápida capacidade de rebrota, que contribui para maior número de pastejos; a tolerância à doenças, principalmente a brusone; a resistência à geadas; a adaptação a clima mais quente, mesmo sendo um cultivar de clima temperado; a alta produtividade e a ótima cobertura de solo. Todas estas qualidades resultam em menos perdas e menores custos aos produtores, além de melhor rendimento da produção de forragem e, consequentemente, maior produção de carne e/ou leite.
“Como é originário de clima mais quente, a região do Alto Vale do Itajaí, o cultivar tem alta tolerância ao calor. Por isso, pode ser cultivado em todas as regiões de Santa Catarina, do litoral até aos locais de maior altitude”, explica Ulisses. Segundo o pesquisador, o Altovale também é uma ótima opção para o sistema integração lavoura-pecuária (ILP), propiciando palhada para o plantio direto ou silagem pré-secada de alta qualidade e rendimento.

Na propriedade da família Krug, produtora de leite em Presidente Getúlio, o Altovale chegou antes mesmo do lançamento do cultivar. “Utilizamos desde 2018, na fase de testes e, mesmo sendo mais caro, nunca deixamos de semear. Ele rende mais, não precisamos estar semeando tanto por metro quadrado por conta do alto volume de trato que o azevém Altovale fornece. Os outros azevéns, além de não produzir tanto, não têm a mesma longevidade, que chega até meados de novembro, então o custo benefício é maior”, justifica Lucas Krug.
O produtor ainda chama a atenção para outras vantagens do cultivar: “O Altovale germina bem dentro das missioneiras, variedade de pastagem perene. Ele também não exige a roçada do pasto para conseguir germinar, uma vantagem em relação a outros azevéns. E nós ainda fazemos o diferimento de alguns piquetes e, nesse caso, como a semente se mantém viável, no ano seguinte começa a germinar junto com o frio, trazendo economia na aquisição das sementes”, explica Lucas. A família Krug produziu 207 mil litros de leite em 2025.

O produtor de leite Mario Ogliari, do município de Santa Terezinha, também não abre mão do azevém Altovale, utilizado na propriedade há quatro anos. “Primeiro semeamos numa pequena área só para testar. Vimos que era vantagem e decidimos semear”, conta o produtor. Para ele, as folhas mais largas e verdes e a rapidez na rebrota fazem do Altovale um azevém muito mais volumoso, resultando num retorno maior em produção em comparação aos demais cultivares do mercado.
“Com uma pastagem de qualidade e água nos piquetes, o que vimos foi as vacas pastando o dia inteiro. Com certeza nós tivemos aumento na produção de leite, que hoje está em torno de 250 mil litros ao ano, com média de 33 vacas em lactação”, relata o produtor. Ogliari só faz uma observação: o azevém Altovale exige um pouco mais de cuidados em relação ao solo por parte do pecuarista, mas o trabalho é recompensado pela garantia das vacas bem alimentadas.
Um relatório produzido pelo extensionista Clayrton Cruz da Silveira, que atua no escritório da Epagri no município de Palmeira, mostrou que os animais chegaram a ganhar em torno de um quilo por dia com o azevém Altovale. O engenheiro-agrônomo acompanhou duas propriedades de gado de corte. “É um material de crescimento rápido, ótimo potencial de rebrota e com folhas largas que ajudam na interceptação da luz, produzindo boa cobertura”, resume Clayrton.

O plantio do azevém Altovale pode ser realizado entre de 15 de fevereiro a 15 de maio em regiões de altitude e de 15 de março a 15 de junho em regiões mais quentes. O pesquisador Ulisses ressalta que, para que a germinação ocorra bem, há necessidade de temperaturas noturnas entre 10 e 18ºC. Desta forma, o acompanhamento do clima é essencial para o bom estabelecimento da pastagem. A recomendação dos pesquisadores é de 20 quilos por hectare para o plantio em linha e de 25 quilos por hectare para o plantio em lanço. O pastejo deve ser rotacionado, com a divisão da propriedade em piquetes. Os animais devem entrar com o azevém em 20 centímetros de altura e sair com 12 centímetros.
“Antes do plantio, os produtores devem fazer a análise do solo para correção e adubação do solo”, alerta Tiago Baldissera, pesquisador da Estação Experimental de Lages e coordenador estadual de pesquisa do Programa Pecuária. A quantidade de ureia recomendada é de até 300 kg/ha, podendo ser feita em diversas estratégias, em dose única ou parcelada. No caso de dose única, o mais importante é ter realizado o plantio direto.
“Para adubação com uréia, o mais importante é realizar no início do perfilhamento, quando as plantas estiverem no estágio entre 3-4 folhas, momento em que elas apresentam a maior capacidade de absorção de nitrogênio”, orienta Tiago. A qualidade da semente é outro ponto a ser observado. O pesquisador recomenda que o produtor guarde em torno de 100 gramas de sementes como salvaguarda para buscar seus direitos em caso de problemas na qualidade do produto.

Os estudos para desenvolvimento do Altovale começaram em 2007, em visitas de prospecção de materiais realizadas em conjunto pela Estação Experimental da Epagri em Ituporanga (EEItu) e a Cravil. Nestas visitas, os técnicos conheceram a propriedade de Rudi Krause, em Lontras, no Alto Vale do Itajaí, onde o azevém era cultivado há mais de 60 anos. O material foi levado para unidades de observação da Cravil, onde continuou atraindo a atenção dos pesquisadores.
Em 2012, o azevém colhido em Lontras entrou no processo de seleção da Epagri em um acordo com a Cravil. Dois anos depois começaram os ensaios de avaliação de Valor de Cultivo e Uso, implantados em Ituporanga, Lages e Papanduva, regiões que se diferenciam por suas condições de clima e de solo. Apesar das diferenças em função dos ambientes, o cultivar apresentou resultados promissores em todas, sobretudo em relação à produtividade, precocidade e ciclo.

Informações e entrevistas:
Ulisses de Arruda Córdova, pesquisador de Forragicultura e Pastagens da Estação Experimental da Epagri em Lages (49) 32896416
Tiago Baldissera, pesquisador da Estação Experimental de Lages e coordenador estadual de pesquisa do Programa Pecuária (49) 32896400
Clayrton Cruz da Silveira, extensionista Escritório Epagri no município de Palmeira (49) 32896370
Por: Cléia Schmitz, jornalista bolsista na Epagri/Fapesc
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